UMA BIBLIOTECA DESAPARECIDA: THE RIO DE JANEIRO BRITISH
SUBSCRIPTION LIBRARY[1]
Nelson Schapochnik[2] – UNESP / Franca
A presença inglesa no Brasil tem raízes que remetem ao concerto europeu setecentista, isto é, ao processo de subordinação econômica de Portugal para com a Inglaterra, referendada por uma série de tratados e acordos. Contudo, é no contexto do Bloqueio Continental e da transferência da corte joanina para o Brasil que a Inglaterra passará a exercer uma presença efetiva, particularmente com a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional e a assinatura de um tratado que conferia taxas preferenciais para as mercadorias inglesas.
Em 1811, na cidade do Rio e Janeiro, havia 207 estabelecimentos comerciais portugueses e 75 ingleses[3]. Já na década de 20, vários atacadistas ingleses haviam instalado armazéns na rua Direita, na rua da Alfândega e na rua dos Pescadores. Além deles, havia também os ferreiros, sapateiros, alfaiates e lojistas. Lentamente, a importação de mercadorias inglesas repercutiu sobre os mais distintos aspectos da vida cotidiana. Num trabalho pioneiro, Gilberto Freyre rastreou a presença destas mercadorias na sociedade brasileira, examinando os anúncios publicitários inseridos na imprensa oitocentista, e constatou a difusão de talheres, louça, hábitos alimentares, mobiliário, fazendas, roupas, chapéus, selas, carruagens, relógios, produtos farmacológicos e as novas possibilidades arquitetônicas derivadas do uso do ferro e do vidro[4].
Algumas décadas mais tarde, Machado de Assis ao comentar o lançamento de um livro de culinária, assinalava com uma aguda ironia as alterações no quotidiano da população carioca, enfatizando a introdução de novos hábitos alimentares derivados da presença britânica:
É fora de duvida que a litteratura confeitologica sentia necessidade de mais um livro em que fossem compendiadas as novissimas formulas inventadas pelo engenho humano para o fim de adoçar as amarguras deste valle de lagrimas.(...)
No meio dos graves problemas sociaes, cuja solução buscam os espiritos investigadores do nosso seculo, a publicação de um manual de confeitaria só pode parecer vulgar a espiritos vulgares; na realidade, é um phenomeno eminentemente significativo. Digamos todo o nosso pensamento: é uma restauração, é a restauração do nosso princípio social. O princípio social do Rio de Janeiro, como se sabe, é o doce de côco e a compota de marmelos. Não foi outra tambem a origem da nossa industria domestica. No século passado e no anterior, as damas, uma vez por ano, dansavam o minuete, ou iam ver correr argolinhas; mas todos os dias faziam/ renda e todas as semanas faziam doce, de modo que o bilro e o tacho, mais ainda do que os falcões pedreiros de Estácio de Sá lançaram os alicerces da sociedade carioca.(...)
Ora, qual era nossa situação ha dez ou quinze annos? Ha dez ou quinze annos, penetrou nos nossos habitos um corpo extranho, o bife cru. Esse anglicismo só toleravel a uns sujeitos como os rapazes de Oxford, que alternam os estudos com regatas, e travam do reino com as mesmas mãos que folheam Hesiodo, esses anglicismos, além de não quadrar ao estomago fluminense, repugna aos nossos costumes e origens. Não obstante, o bife cru entrou nos habitos da terra; bife cru for ever, tal é a divisa da recente geração.
(...) A grande maioria acode ás urgencias do estomago com a sandwich, não é menos peregrina que o bife cru, e não menos sórdida; ou com croquette, estrangeirice do mesmo quilate; e a decadencia e a morte dos doces parecem inevitaveis[5]
O estreitamento dos laços comerciais e a fixação de cidadãos britânicos na cidade do Rio de Janeiro também propiciaram a importação de idéias e livros, que fomentaram a ampliação do léxico com a introdução de anglicismos e a circulação de ideologias seculares que remetiam ao liberalismo e utilitarismo. De acordo com as observações do inglês Mathison, por volta de 1821, a leitura não só era rarefeita como também os livros ingleses estavam restritos à comunidade britânica, uma vez que a maioria das obras que circulava por estas terras era de procedência francesa[6].
A exemplo da comunidade germânica, estes comerciantes, artífices e funcionários civis e militares da legação britânica na corte imperial, fortemente impregnados por uma cultura comunitária e protestante que fortalecia as práticas da leitura, procuraram fundar um “reading-room”[7]. Segundo o testemunho de Ernest Ebel, em 1824 já estava em funcionamento a Sala de Leitura Birnie, localizada na rua Direita. Tratava-se de uma biblioteca que funcionava por meio de assinaturas e que era mantida, em grande parte, por membros da comunidade britânica:
Aí se encontram quase todos os diários ingleses, um par de franceses, o Correspondent de Hamburgo, jornais estes que os paquetes ingleses trazem com certa regularidade, mensalmente da Europa; assim ficamos a par de tudo o que se passa no mundo.[8]
Para os freqüentadores da Sala Birnie, a instituição se apresentava como um elo de ligação com “tudo o que se passa no mundo”, permitindo obter mensalmente informações de pontos de vista variados sobre as oscilações do câmbio e do comércio internacional, das querelas entre o liberalismo e as forças restauradoras do Antigo Regime, etc. Nenhum outro dado sobre esta iniciativa associativa dos ingleses no Rio de Janeiro foi localizada. Este empreendimento, contudo, talvez tenha sido a base de uma instituição que envolvia uma dose maior de ousadia, o agenciamento de mais subscritores e a captação de um volume maior de recursos.
De acordo com a ata lavrada num velho caderno capeado em couro, numa terça-feira, primeiro de agosto de 1826, cento e cinqüenta cidadãos britânicos estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro reuniram-se nas dependências do Hotel Imperial. O intuito desta reunião, tão logo convertida em assembléia geral, era formalizar a criação de uma instituição designada “Rio de Janeiro British Subscription Library”. O documento, bastante conciso, fixava de maneira claríssima um estatuto mínimo para o funcionamento desta sociedade cujo objetivo, expresso no primeiro artigo, visava obter as obras mais populares em idioma inglês, em beneficio dos assinantes”[9].
Além de instituir uma hierarquia interna que se expressava na delimitação de uma diretoria incumbida de eleger e preencher os cargos de presidente, secretário e tesoureiro, o documento prescrevia a adoção de um rodízio entre os membros da diretoria, renovada semestralmente por meio de assembléias. Ficava estabelecido que o interessado em se associar deveria arcar com o pagamento da importância de vinte mil réis de jóia, para formar um fundo para a compra imediata de livros e outras despesas relativas a formação da instituição”[10], e ainda, desembolsar uma taxa estipulada em doze mil réis relativa à assinatura anual.
A imediatez do evento contribuiu para que muitos aspectos elencados na assembléia ― como, por exemplo, a escolha dos livros, o padrão de encadernação conveniente, a nomeação do bibliotecário e dos agentes responsáveis pela aquisição das obras, o local mais apropriado para o funcionamento da biblioteca e sala de leitura, a formação do catálogo, as providências necessárias para se obter a isenção de taxas para os livros, a imposição de multas e a delimitação do período de empréstimo ― fossem deixados para serem determinados pela futura diretoria num momento mais oportuno[11].
Cerca de duas semanas após a fundação, a diretoria deliberou que brevemente estariam à disposição dos assinantes, na biblioteca da instituição, os seguintes periódicos: Edinburgh Review, London Quaterly, New Monthly Magazine, Blackwood’s Magazine, Edinhurgh Monthly, Westminster Review, Magazine of Ireland, Dumfries Magazine, Ackerman’s Repository, Literary Gazette, Kaliedescope, Pamphleteer, Edinburgh Journal of Science, Philosophical Journal, Scientific Review, Buckinghan’s Oriental Herald. Foi também fixado um acordo, que dispunha de um fundo mensal de doze libras, com os agentes londrinos Smith & Elder para o envio de periódicos e de livros. No caso das “obras populares”, elas deveriam ser enviadas em “duas, três ou quatro coleções, uma das quais encadernada uniformemente e as demais com capa de papelão”[12].
O sucesso deste empreendimento, por volta do final dos anos 20, parece inequívoco. Mereceu, inclusive, uma nota entusiástica do missionário Robert Walsh:
Há pouco tempo criaram uma biblioteca circulante com um bom estoque de todas as recentes publicações da Europa. Possuem também um jornal (Rio Herald) que acredito agora estar suspenso.[13]
As reuniões subseqüentes introduziram pequenas alterações estatutárias. Assim, houve a discriminação de duas categorias de associados, “proprietários” e “nãoproprietários”, sendo a assinatura semestral destes últimos reduzida de 14 para 12$ réis. Embora acolhida pela maioria dos associados, esta disposição suscitou um “warm debate”[14].
A leitura do livro de atas das reuniões da diretoria chama a atenção para o fato de que o honroso cargo de presidente da instituição, via de regra, cumpria um papel basicamente figurativo, abrindo as sessões ou lendo atas previamente elaboradas pelo secretário, embora tivesse “voto de qualidade” nas ocasiões oportunas. Ao secretário, cabiam funções bem mais trabalhosas e que, de certa maneira, garantiam o bom funcionamento da instituição. Para ilustrar a pluralidade das atribuições desempenhadas pelo secretário, ele foi incumbido de negociar com o proprietário do Exchange Hotel o contrato de locação, no valor de 600$ réis anuais, relativo às dependências da British Subscription Library, de pesquisar e contratar uma tipografia para preparar o catálogo da biblioteca “que não poderia ser impresso nesta cidade por menos de 100$ réis”, de contatar os agentes livreiros de Londres para o envio da melhor e mais moderna “Encyclopedia; Graham’s Journal of a voyage to Brazil, 1 vol.; The Travellers Lay, a poem by J. Maude; Evelyn’s Memoirs of the Court of James, 1 vol.; The Records of a Good Man’s Life, by Tayler, 2 vol.; Santarem, 1 vol.; Lives of Illustrious and distinguished Scotsmen, about 22 parts” ou, ainda, de repassar as ações daqueles sócios em débito com a instituição[15].
Desafortunadamente, as atas das reuniões da British Subscription Library apresentam uma grande lacuna que impede o conhecimento do processo de incorporação de novas obras (seja por doação, seja por aquisição), do número preciso dos associados, das sugestões dos subscritores e das decisões da diretoria[16]. Mas não só isso, visto que por meio deste documento seria possível entender os sucessivos deslocamentos da sede da instituição e as alterações em seu horário de funcionamento, conforme os anúncios publicados no Almanack Laemmert[17].
De certo, a instituição prosseguiu suas atividades como se pode apreender pelos avisos do Secretário informando aos associados o encerramento da subscrição semestral:
Notice hereby given that the Half-Yearly Subscriptions to the Rio de Janeiro British Subscription Library are now due, and if not paid on or before 15th. Inst. fines will be incurred according to the Regulations. Samuel Norris, Secretary[18]
Ou por meio das convocações para as assembléias gerais:
The proprietors of British Subscription Library are requested to attend the General Meeting, to be held at the rooms, on Monday 19th inst. at 11 o’clock, AM. Rio 16th January 1857, R. Francis, Secretary.[19]
Conquanto tivesse se estabelecido a prática do rodízio, a tabela abaixo mostra uma certa tendência à perpetuação de alguns associados nos diferentes cargos que compunham os quadros da diretoria. Os nomes assinalados com asterisco aparecem listados como negociantes estrangeiros nas páginas do Almanack Laemmert e, tudo indica, compunham a categoria profissional com mais associados.
British Subscription Library
Quadro da Diretoria/1826-1876
ANO |
PRESIDENTE |
TESOUREIRO |
SECRETÁTRIO |
|
1826 |
Stewart Ruthven McKay* |
|
|
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1832 |
|
Adam Hogg * |
Robinson |
|
1842 |
Vibert* |
Southam |
Jordan Crewse |
|
1846 |
|
|
Samuel Norris |
|
1850 |
|
|
S.M.Waddington |
|
1851 |
Frederico Benjamin |
Thomaz J.Tovey |
Henrique Whittle |
|
1852 |
Diogo MacGrowther |
Henrique Chrisholm |
William Morrissy |
|
1853 |
George L.Hall |
|
|
|
1856 |
Rev. George Grahan |
Henry Miller |
|
|
1857 |
R. Francis |
|
Henry MilIer |
|
1859 |
Rev. George Grahan |
|
R. Francis |
|
1863 |
Joseph Fry* |
William C.Carré |
Thomaz Fred. Tove |
|
1864 |
J.V. Naylor |
Collin Mckenzie |
R.W.Garret |
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1866 |
William Ford* |
Collin McKenzie |
R.W.Garret |
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1868 |
A. Whittle |
Rob. Duncan |
E.Stewart |
|
1869 |
A. Whittle |
Rob. Duncan |
E.Stewart |
|
1871 |
Rev. George Preston |
Albert Tootal |
R.W.Garret |
|
1872 |
Rev. George Preston |
Charles Schwind Jr* |
R.W.Garret |
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1874 |
E. W. May |
Andrew Muir* |
R.W.Garret |
|
1876 |
Andrew Muir |
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|
Fontes: Minute Book v. 1 (1826-1832); Jornal do Commércio 1842 e 1846; Almanack Laemmert 1846-1876.
Como resposta à consulta ao Conselho de Estado que havia prescrito mudanças no seu estatuto, a diretoria convocou uma assembléia extraordinária, realizada aos 29/06/1863, na qual ficaram acordadas alterações que incidiram particularmente na elevação da taxa de subscrição anual, que passou para 30$ réis, e na introdução de um novo artigo, que estabelecia a necessidade de um quorum de metade mais um para a realização da assembléia geral. O novo estatuto reiterava a finalidade da associação: “obter livros e quaesquer publicações periodicas, politicas, scientificas e litterarias, nacionaes e estrangeiras”, franqueava a consulta e leitura das obras no gabinete da instituição e introduzia a permissão para a retirada de obras favorecendo a leitura doméstica”[20].
Provavelmente beneficiada pelo aumento do valor da subscrição, a instituição se expandiu e, em 1864, publicou o seu primeiro Catalogue of books in the Rio de Janeiro British Subscrtption Library, sob os auspícios dos agentes londrinos Smith & Elder[21]. Lamentavelmente, este catálogo não foi localizado em nenhuma das instituições pesquisadas.
A impossibilidade de percorrer as estantes da associação e de perscrutar a ordem dos livros limitou-nos ao exame do catálogo de 1882, desta vez publicado por G. Leuzinger na cidade do Rio de Janeiro. Nesta obra, não foram arrolados os jornais, nem os periódicos assinados pela instituição. Ela registra apenas os livros que pertenciam ao acervo da biblioteca, computando um total de 3566 títulos, exclusivamente publicados na língua inglesa e distribuídos da seguinte maneira:
British Subscription Library - RJ
Catálogo (1882)
CLASSES |
N0 DE OBRAS |
% |
|
Romances |
1205 |
33,79 |
|
Viagens |
711 |
19,93 |
|
Biografias |
527 |
14,77 |
|
Miscelânea |
333 |
9,33 |
|
Clássicos |
309 |
8,66 |
|
Teatro e Poesia |
223 |
6,25 |
|
Referência |
212 |
5,94 |
|
Teologia |
46 |
1,28 |
Fonte: British Subscription Library. Catalogue compilled under the
direction ofthe committee. R.Janeiro, G. Leuzinger & Filhos, 1882.
Convém destacar que a sessão “referência” estava subdividida nas categorias: Anais (10), Biografias (10), Comércio (76), Linguagem (21), Literatura (16), Direito (7), Política (7), Ciências e Artes (55),Miscelâneas (10).
Observa-se, na composição dos fundos desta biblioteca, uma distribuição que reforçava o caráter laico e recreativo da associação. Tal fato fica evidente quando se confronta o número de obras de teologia com as demais classes elencadas no catálogo. Uma certa cumplicidade epistemológica permite reunir as distintas rubricas “biografias” e “viagens” (totalizando 1238 obras ou 34,7l% do acervo), na medida em que fornecem, respectivamente, um modelo de narrativa moral sobre os grandes personagens da história e um inventário das sociedades não européias. Sob ângulos complementares, explicitados pela genealogia, pela cronologia, pela descrição das diferentes formas de conduta política ou, ainda, pelo testemunho dos viajantes, temos a constituição de um saber sobre a evolução. Neste caso, os dois vetores, tempo e espaço, oferecem um argumento sub-reptício que contribui para uma concepção europocêntrica e ainda uma justificativa para o terrível “fardo do homem branco”.
A sessão denominada “miscelânea” reunia uma plêiade de textos que mesclavam filosofia, ciências e literatura. Esta fórmula, adotada originariamente na terceira edição da Encyc/opaedia Britannica, completada em 1797, refletia “uma estratégia eminentemente editorial, baseada em projeções estimativas dos hábitos de leitura do grande público, que cada vez mais se sobrep(unh)am aos sistemas de organização do conhecimento concebidos por sociedades de literatos ou por iniciativas particulares de alguns escritores”[22].
Nada surpreendente é a predileção dos associados pelo gênero romance, que constituía a divisão mais bem fornida da biblioteca. No entanto, se a esta sessão forem acrescidas as rubricas “teatro e poesia” e “clássicos”, não teremos apenas uma alteração na somatória, que passaria a indicar a presença de 1737 obras, correspondendo a 48,7% do acervo. Esta operação possibilitará um melhor entendimento da cultura literária proporcionada pela instituição e, quiçá, do gosto literário do público.
Visando a uma compreensão mais detalhada dos artefatos textuais que compunham o acervo literário da biblioteca, irei me concentrar no exame dos três fundos mencionados acima.
Conforme já foi explicitado, os “romances” eram responsáveis por 33,79% do acervo da instituição, o que correspondia a um total de 1205 livros. O alto índice de “romances” na biblioteca é bastante significativo, pois até o século XVIII o romance não era considerado uma forma de arte respeitável. Foi somente no século XIX que seu prestígio se consolidou, passando a ser a expressão literária da sociedade burguesa triunfante. De acordo com Lionel Trilling, o romance foi o agente mais eficaz da imaginação moral. “Ele jamais foi, estética ou moralmente falando, uma forma perfeita e suas falhas e fracassos podem ser rapidamente enumerados. Mas a sua grandeza e a sua utilidade prática encontram-se no absorvente trabalho de envolver o leitor na vida moral, convidando-o a colocar as suas próprias motivações sob exame, sugerindo-lhe que a realidade não é como a sua educação convencional acostumou-o a encará-la. Ensinou-nos, como nenhum outro gênero em qualquer outra época, a extensão da variedade humana e o valor desta variedade. Foi a forma literária na qual as emoções da compreensão e do perdão eram inatas, como se pertencessem à própria definição da forma.[23]
Na listagem abaixo são apresentados os autores que dispunham do maior número de obras:
Dickens, Charles - 35
Trollope, Anthony - 29
Scott, Walter - 28
Thackeray, William Makepeace - 27
James, George Payne Rainsford - 25
Lytton, Edward G.E.L.Bulwer -25
Braddon, Mary -21
Collins, William Wilkie - 20
Melville, George John Whyte - 19
Gore, Catherine - 18
Oliphant, Margaret - 18
Lever, Charles - 16
Black, William - 14
Cooper, James Fenimore - 12
Disraeli, Benjamin - 11
Kingsley, Henry - 11
Marryat, Capt. - 11
Trollope, Eleonor F. - 11
Edgeworth, Maria - 10
Eliot, George - 10
Mulock, Dinah - 10
Reade, Charles - 10
Um primeiro aspecto que chama a atenção ao percorrer esta listagem é a presença exclusiva de autores anglógrafos, sejam eles oriundos do Reino Unido ou dos Estados Unidos. O fato em si não causa estranheza e parece até decorrer das disposições estatutárias, mas sobretudo corrobora uma afinidade lingüística e cultural entre a comunidade dos leitores. Não obstante, ao longo do catálogo, é possível destacar a presença de autores vinculados a outras comunidades lingüísticas como, por exemplo, os franceses, Jules Verne (9), Victor Hugo (6), Erckmann-Chatrain (5),Alexandre Dumas (3), Alphonse de Lamartine (2), Gabriel Ferry (1), Emile Souvestre (1); os alemães, Frederíck Gerstaecker (2), Gustav Freytag (1), H.W. Hackländer (1), Ida Hahn Hahn (1); os espanhóis, G.A.Sala (4) e Don T. de Trueba (1); o italiano Garibaldi (1), a sueca Frederika Bremer (1) e o dinamarquês Hans Christian Andersen (3), todos eles invariavelmente traduzidos para a língua inglesa.
Aquele repertório de romances é exclusivamente formado por obras contemporâneas, conferindo um inequívoco grau de atualização ao acervo da biblioteca. Obviamente, isto não excluía a presença, nas prateleiras, das obras canônicas, que atestavam a existência de uma literatura nacional e que, em certa medida, reforçavam os laços desta comunidade imaginária[24]. Entretanto, elas estavam limitadas a alguns títulos de autores representativos como Chaucer (2), Defoe (1), Johnson (1), Sterne (1), etc.
Se, por um lado, esse recorte lingüístico e temporal deve ter repercutido na cultura literária, por outro, reforçava o caráter moderno da instituição. No entanto, é bastante difícil precisar até onde vão o desejo e o esforço dos membros da associação em sintonizarem-se com as novidades e traduções lançadas pelo mercado editorial anglo-americano e os interesses comerciais dos agentes livreiros, contratados especialmente para este serviço. Seja qual for o elo mais forte, não resta dúvida sobre a presença ostensiva da literatura oitocentista, pontificada nas distintas variações do gênero romance, isto é, do romance histórico (W.Scott, G.P.R.James, F.Cooper, E.G.Lytton, W.Melville), do romance gótico (W H Ainsworth), do romance policial (W.Collins, M.Braddon), do romance reformista (C.Reade, C.Kingsley), do romance realista (E.Gaskell, C.Dickens, W.Thackeray, A.Trollope, B.Disraeli) e do romance naturalista (G.Eliot).
Refigurados na prosa de ficção, ganham relevo as tensões e temas que marcaram a Era Vitoriana: a feição bucólica e pitoresca associada à vida campestre em oposição ao artificialismo e as profundas alterações na vida urbana suscitadas pela industrialização; os conflitos de classes e de indivíduos; as crises de consciência ou dramas existenciais decorrentes do desencantamento do mundo; o filistinismo burguês e a opressão das mulheres; as fantasias e frustrações sexuais acarretadas pelos rígidos padrões morais; o aparecimento de formas de consumo conspícuo contraposto à miséria das classes populares; etc.
Não por acaso, muitos destes textos aparecem vazados na forma de inquéritos ou reportagens ― como uma descrição ou genuína reconstrução imaginativa dos ambientes e das formas dialetais ― de relatos de viagem, que exploravam a “cor local” e as peculiaridades de outras paragens, e de biografias de heróis ou personagens fictícios, narrados de maneira épica.[25]Afinal, o emprego da forma romance não renunciava aos recursos que exerciam um fascínio documental, embora convidassem o leitor a usar sua faculdade da imaginação, convertendo-se numa sondagem das grandes esperanças e das ilusões perdidas, das quais os próprios escritores e leitores eram, simultaneamente, agentes e espectadores.
O crescimento da oferta de textos ficcionais foi amplamente impulsionado pela alfabetização massiva e pela emergência de um novo público leitor, constituído por elementos das classes médias urbanas e da classe trabalhadora. E, sobretudo, com o aparecimento de novos suportes, especialmente revistas e jornais, que divulgavam, de forma seriada e por um preço módico, muitos dos textos que, posteriormente, foram lançados no mercado sob a forma de livros que cruzavam o Atlântico, desembarcavam no cais Pharoux e alimentavam o imaginário dos freqüentadores da biblioteca inglesa[26].
Um segundo aspecto que confere uma particularidade para este acervo, quando confrontado com os congêneres de outras bibliotecas associativas, é a grande presença de mulheres escritoras. Além daquelas já elencadas, devem ser acrescidas ainda Henry Wood (9), Amelia Edwards (8), Countess Blessington (6), Elizabeth Cleghorn Gaskell (6), Mrs. Ophie (6), Harriet Beecher Stowe (6), Jane Austen (5),Marie Louise de la Ramée (5),Shirley Brooks (5),Mrs. Marsh (5), Mrs. T.F.Riddel (5),Miss Yonge (5), Sarah Tytler (5),Grace Aguilar (4), Mrs. Alexander (4) e ainda mais cerca de 52 escritoras que aparecem com menos de quatro livros.
Mascarando sua identidade sob pseudônimos masculinos (George Eliot, Currer Bell, Henry Wood) ou ainda, apelando para os substantivos “mistress” e “miss” que lhes ocultavam o primeiro nome e as punham sob a égide do marido ou da família de origem, uma profusão de escritoras conquistou um espaço entre os criadores de literatura[27]. Colaboradoras ativas dos principais magazines literários publicados na Grã-Bretanha, elas foram comercialmente bem sucedidas, em que pese a baixa estima e as dificuldades para romper com a altivez masculina de críticos e escritores que as tomavam como uma ameaça e uma ofensa a instituição masculina[28].
Embora nem todas fossem feministas doutrinárias, seus textos abordavam, em enredos moralizantes de fundo romântico, as agruras e os dissabores experimentados pelas mulheres de diferentes classes sociais. Não por acaso, o questionamento do estereótipo da boa mulher/boa esposa, do casamento por conveniência e do altruísmo feminino foram explorados em romances e contos detetivescos, que por meio de descrições minuciosas abordavam vidas e crimes pontuados por traições, bigamia, infâmia e tédio, decorrentes de conflitos de classe ou de temperamento entre os protagonistas, como também da infelicidade e insucessos amorosos.
Embora as mulheres não fossem as únicas leitoras de romances, elas eram consideradas o principal alvo da ficção romântica e popular. De acordo com Martyn Lyons, “a feminização do público leitor de romances parece confirmar os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e sua inteligência. Romances eram tidos como adequados para as mulheres por serem elas vistas como criaturas em que prevalecia a imaginação, com capacidade intelectual limitada, frívolas e emotivas. O romance era a antítese da literatura prática e instrutiva. Exigia pouco do leitor e sua única razão de ser era divertir pessoas com tempo sobrando”[29].
Já o fundo constituído por “obras de poesia e teatro” era responsável por 6,25% do acervo de obras da biblioteca, representadas por 223 livros. Os autores que dispunham do maior número de obras eram os seguintes:
Tennyson, Alfred - 11
Lytton, Edward Bulwer - 10
Longfellow, Henry Wadsworth - 07
Browning, Robert - 06
Knowles, Jarnes Sheridan - 06
Moore, Thomas - 06
Mackay, Charles - 05
Schiller - 05
Morris, William - 04
Reade, J.E. - 04
Scott, Walter - 04
Swinburne, Charles Algernon - 04
Southey, Robert - 04
Entre as obras de poesia também se repete o recorte temporal observado entre os romances, com a predominância de autores oitocentistas. Destacam-se os representantes da poesia romântica (T. Moore, W.Scott, R. Southey), que, ao lado de Coleridge (1) e Wordsworth (1) adotaram os sonetos e as baladas líricas, vazadas numa língua coloquial, para tratar de temas nacionais e populares, afastando-se do alto estilo clássico. A relação acima também indica a presença de autores que foram responsáveis por rupturas com a estética romântica, como foi o caso de A.Tennyson, H.Longfellow, R.Browning e C.Swinburne.
De certo, o catálogo indicava a presença de outros poetas que concorriam para o caráter exaltativo da cultura britânica. Dessa forma, estavam disponíveis aos associados interessados em revisitar a tradição poética, entre outros, J.Dryden (1), J.Gay (1), A. Pope (2), E.Young (1), O.Goldsmith (1), W.Cowper (1), Ossian (1) e os contemporâneos P.Shelley (1), G.Byron (1), J.Greenleaf Whittier (3), .J.Leigh Hunt (2) e E.Allan Poe (1). Quanto aos poetas de outras comunidades lingüísticas, apareciam apenas duas traduções, de Goethe (1) e de Tasso (1). E, finalmente, deve-se observar as significativas ausências de John Donne, William Blake e John Keats.
Alocadas juntamente com as obras de poesia, as de teatro apresentam um número menor e, pasmem, apenas James Sheridan Knowles, ator muito conceituado no período e tido como o primeiro autor moderno de tragédias, e o alemão Schiller apareciam no rol dos autores com o maior número de obras. Presente também está o duo isabelino composto por Shakespeare (1) e Marlowe (1); Beaumont e Fletcher (1) e o neoclássico J .Dryden (1).
A última seção a ser examinada é aquela denominada “clássicos”, que totaliza 309 livros ou 8,66% do acervo da biblioteca. Esta seção está longe de ser identificada com um repertório de autores e obras da antiguidade, mesmo porque os de origem grega se limitavam a Plutarco e, entre os latinos, figuravam apenas Plínio e Cícero. Também convém lembrar que a existência de uma categoria nomeada de “clássicos,” apartada das seções “romances” e “poesia e teatro”, pode ser um indicativo da autonomização do campo literário frente a outras formações discursivas, que tradicionalmente eram enfeixadas sob a égide das Belas-Letras.
Todavia, se o esgotamento daquela velha fórmula de organizar os saberes era inequívoco, estavam alocados entre os “clássicos” textos de natureza distinta, incluídas aí obras cuja amplitude temática e diversidade de formas e de gêneros é surpreendente. Embora fosse majoritariamente constituída por obras literárias, a pequena amostragem abaixo deixa entrever o ecletismo desta seção:
Bentham. Jeremy - 05
Carlyle, Thomas - 05
Combe, G. - 04
De Quincey, Thomas - 04
Hazlitt, William - 04
Ruskin, John - 04
Brougham, Lord Henry Peter- 03
Foster, John - 03
Aparecem arrolados textos de natureza política, como os de Bentham, Carlyle e Lord Brougham, obras de literatura, com De Quincey e Hazlitt, e ensaios de arte por Ruskin. Mas para além dos autores que apareciam no topo do ranking, também podem ser destacadas as presenças de filósofos (F. Bacon, D. Hume, R. W. Emerson, J. S. Mill), historiadores (T. B. Macaulay, H. Buckle, R. Southey, G. C. Lewes), poetas (H. P. Addison, O. Goldsmith, S. Coleridge, C. Lamb), romancistas e contistas (L. Sterne, J. Swift, W. Scott, E. A. Poe, C. Kingsley, W. Thackeray), publicistas e discursos políticos (J. Swift, G. Canning, E. Burke, T. B. Macaulay), narrativas de viagens (T. Ewhank, J. Mawe, R. Burton, L. Agassiz, C. Darwin), entre muitos outros. Presentes também estão autores estranhos à comunidade anglógrafa, como os franceses Guizot, Montesquieu, Chateaubriand, Mme. du Deffand, T. A. D’Aubigné e os alemães F. Schlegel, Humbold e Schiller.
Diante da heterogeneidade e abrangência dos textos, não parece equivocado atribuir duas possibilidades para a compreensão do sentido da categoria “clássicos”. Por um lado, estavam agrupadas ali obras e autores modelares, portanto, aqueles que deveriam ser imitados ou glorificados como os representantes mais significativos de um determinado gênero, seja ele ficcional ou não. Por outro lado, era uma maneira de destacar as obras de primeira grandeza (first rate), que pela excelência da edição e da encadernação conferiam uma reputação ao possuidor ou ao leitor e exigiam uma ordenação peculiar[30].
A inferência de Walsh sobre a atualização e modernidade do acervo das bibliotecas por subscrição e dos gabinetes literários estava corretamente assentada, e sua validade, como já foi exposto, não se restringia às primeiras décadas do século dezenove. A asserção pode ser estendida e tomada como uma tendência de maior amplitude. Espaço de convivência social e suporte para a cultura letrada, o gabinete inglês de leitura continuou, ao longo do século, animando a colônia britânica e, quiçá, alguns leitores brasileiros. É o que se apreende do lacônico registro de James Wells que, ao percorrer a rua do Ouvidor em meados da década de oitenta, não só a designava como a “Bond Street do Rio”, como registrava uma breve passagem pela “biblioteca de empréstimos britânica, uma grande dádiva para os moradores e muito apreciada por eles”[31].
As dificuldades em obter relatos de leitura dos associados do British Subscription Library não me dissuadiram de encerrar este tópico com uma passagem do já mencionado James Wells, porque parece elucidar um dos efeitos possíveis da leitura daquelas obras.
Depois de permanecer algumas semanas na corte imperial, ele fora incumbido de proceder uma longa exploração, que previa o levantamento das estradas, nivelamentos barométricos e relatórios sobre os distritos, de maneira a ligar o tráfego navegável do São Francisco ao Tocantins. Na estação da ferrovia D.Pedro II, rumo à Barbacena, ele observava o movimento daquela miscelânea de fazendeiros ricos e comerciantes, “vestindo ponchos de linho branco, botas de couro envernizado e chapéus Panamá... falando alto e recendendo a alho e tabaco”, “comerciantes de aparência biliosa, amanuenses pálidos, portugueses gordos e uma multidão indistinta de matutos mulatos ou negros...”. Após se acomodar num dos assentos largos e revestidos de palhinha, ele entabula um diálogo interior, posteriormente convertido em narrativa de viagem:
Sento-me com um sentimento de exultação ao tomar consciência de que finalmente eu estava a caminho de realizar o sonho tão ansiado de minha juventude ― uma longa temporada viajando pela região agreste dos trópicos. Receio que Defoe e seu Robinson Crusoe, o Capitão Mayne Reid e outros escritores semelhantes sejam responsáveis pelas idéias fantásticas que se criam nas mentes dos jovens, fazem tantos ingleses partirem pelo mundo e nos tornam uma raça tão perambulatória e o Império Britânico tão vasto.[32]
Referências Bibliográficas:
ASSIS, Machado de. Chronicas. v. 4. Rio de Janeiro W. M. Jackson, 1938.
CAVALLO, Guglielmo e CHARTIER, Roger (ed.s). História da leitura no mundoocidentalv.2. São Paulo: Ática, 1999.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Edunesp, 1998.
CHARTIER, Roger . (Org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
DRABBLE, Margaret (ed.). The Oxford Companion to English Literature. Oxford, Oxford University Press, 1996 (2a ed. Rev.).
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, s/d.
EBEL, Ernest. O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824. São Paulo: Nacional, 1972. EISENSTEIN, Elizabeth. A revolução da cultura impressa. São Paulo: Ática, 1998.
FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil. Rio de Janeiro: José Qlympio, 1948.
GAY, Peter. O coração desvelado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 1842 e 1846.
KLANCHER, Jon P. The making of english reading audiences, 1790-1832. Madison: Wisconsin University Press, 1987.
MANCHESTER, Allan K. Preeminência inglesa no Brasil. São Paulo, Brasiliense,
1973.
QUADROS, Jussara Mendes. Estereotipias. Literatura e edição no Brasil da primeira
metade do século XIX (1837-1864). Campinas: IEL-UNICAMP, 1993 (dissertação de
mestrado).
TODD, ianet (ed.). Dictionary of British Women Writers. London: Routledge, 1991.
TRILLING, Lionel. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Lidador, 1965.
WALSH, Robert. Notícias do Brasil (1828-1829). São Paulo/Belo Horizonte:
Edusp/Itatiaia, 1985.
WELLS, James W. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil. Do Rio
de Janeiro ao Maranhão. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995.
[1]Originariamente, este texto fazparte do cap. 3 de minha tese de doutoramento, intitulada Os jardins dasdelícias: gabinetes literários, bibliotecas e figurações da leitura na corte imperial. São Paulo: FFLCH-USP. 1999.
[2] Professor assistente-doutor do Departamento de História da Faculdade de História, Direito e Serviço Social (UNESP — Campus de Franca). Rua Major Claudiano, 1488. Franca, SP, 14400-690. E-mail: nschapo@uol.com.br
[3]Sobre as relações Brasil e Inglaterra. veja o consagrado estudo de MANCHESTFR, Alan K. esp. Cap. III e IV in Preeminência inglesa no Brasil.
[4] FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil. p. 274-279.
[5] ASSIS, Machado de. “Notas semanais d’O Cruzeiro”(02/06/1878), in Chronicas v. 4. p. 12-14.
[6] Apud FREYRE, Gilberto. Ob. Cit., p. 66.
[7]Sobre as relações entre a cultura protestante do livro e as iniciativas na fundação de sociedades de leitura e bibliotecas por subscrição, veja: CHARTIER, Roger. “A biblioteca entre o reunir e o dispersar”, in A aventura do livro. p.122. Por sua vez, Elizabeth Eisenstein desenvolveu um longo estudo onde enfatiza o impacto da cultura impressa sobre as formas de comunicação e suas repercussões nas práticas sociais e institucionais. A difusão do livro e o desenvolvimento de uma cultura comunitária são objeto do capítulo 6 “O mundo cristão dilacerado: a reformulação das circunstâncias da Reforma”, in A revolução dacultura impressa.
[8] EBEL, Ernest. O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824. p. 119.
[9] (SCIB), Minute Book v. 1. Art. 1o do Estatuto da British Subscription Library (01/08/1826).
[10]Idem, Art. 6o do Estatuto da British Subscription Library.
[11]ldem, Art. 8o do Estatuto da British Subscnption Library.
[12](SCIB). Minute Book v.1, Reunião de 17/08/1826.
[13] WALSH, R. ob. cit., p. 198.
[14] (SCIB), Minute Book v.1, Reunião de 30/07/1832.
[15](SCIB), Minute Book v. 1, Reunião de 11/08/1832.
[16]Os minute books localizados no Centro de Referência Cultural da Sociedade Cultura Inglesa do Brasil (RJ) apresentam a seguinte numeração e periodização: vol. 1 (01/08/1826 - 28/07/1834), vol. 2 (l4/07/l889) - 23/01/1925) e v. 3 (18/02/1925 - 12/09/1938).
[17]De acordo com o Almanack Laemmert, a sede da British Subscription Library foi sucessivamente: 1844 - 1850 - R. das Violas. 38; 1852 - 1853 - R. do Sabão, 3 (2o and); 1855 - 1861 - R. Direita, 48 (2o and); 1863 - 1866 - R. Direita, 44; 1868 – 1872 – R. Da Quitanda, 157; 1874 – 1876 – R. De São Pedro, 65; 1878 – R. Do Ouvidor, 48 (2o and). Já o horário de funcionamento variou: 1884 – 1849 – 9/20h; 1857 – 1859 – 9/12, 14/17h; 1869 – 9/21h; 1871 – 8:30/12, 15/18h; 1872 – 1875 – 8:30/11, 14/18h; 1876 – 1878 – 14/18h (dias úteis); 13/17h (sábado).
[18] Jornal do Commercio, 08/01/1846.
[19] Idem, 18/01/1857.
[20]AN - Conselho de Estado/Consulta Pública (ex. 534 pc.2 doc.32). Estatutos do Rio de Janeiro British Subscription Library, 29/07/1863.
[21] As atividades do comércio livreiro da empresa Smith & Elder devem ser juntadas à atuação na área editorial, com a publicação de obras de John Ruskin, Charlotte Brönte e William M. Thackeray. Georg Smith foi ainda o fundador do periódico The Cornhill Magazine (1859), cujo editor era Thackeray, e do vespertino The Pall Mall Gazette (1865). Cf. DRABBLE, Margaret (ed.) The Oxford Companion to English Literature. p.923-924.
[22]Cf. QUADROS, Jussara Mendes. Estereotipias. Literatura e edição no Brasil da primeira metade doséculo XIX (1837-1864). p. 39.
[23] TRILLING, Lionel. “Costumes, moral e o romance”, in Literatura e sociedade. p. 247.
[24]Terrv Eagleton chama atenção para a reorganização radical da formação discursiva da sociedade inglesa, nas últimas décadas do século XVIII, enfatizando que até aquele período o conceito de literatura era plural (incluindo aí textos de filosofia, história, ensaios, poemas e cartas) e se conformava a certos padrões das “belas-letras”. O sentido moderno da palavra literatura foi uma invenção oitocentista calcada na “criação imaginativa”, como “imagem do trabalho não alienado”, convertendo-se numa ideologia alternativa ao racionalismo e ao empirismo, cuja tarefa era “transformar a sociedade em nome das energias e valores representados pela arte”. Cf. FAGLETON. Terry. “A ascensão do inglês”, in Teoria daliteratura: uma introdução. p. 19-58 (as citações aparecem na p. 22).
[25]De acordo com Peter Gay, “as biografias pareciam tanto com os romances como com as exortações, mas, ao contrário dos primeiros, alegavam contar a verdade e, diferentemente das segundas, reforçavam sua mensagem não com preconceitos vagos e sim com exemplos concretos”, in O coração desvelado. p. 178.
[26]Para uma análise da repercussão destes periódicos na formação de um novo público leitor no contexto inglês, veja: KLANCHER, Jon P. “From crowd to mass audience”, in The making of english readingaudiences, 1790-1832. p. 76-97.
[27] Para resolver as muitas charadas, presentes nas páginas do catálogo, que envolvem o uso de abreviaturas, de pseudônimos e a oclusão do primeiro nome das escritoras, foram consultadas as seguintes obras: DRABBLE, Margaret (ed.). The Oxford comanion to English Literature e TODD, Janet (ed.). Dictionary of British Women Writers.
[28] Cf. GAY, Peter. “O poderoso sexo frágil”, in A cultura do ódio. esp. p. 331-356.
[29] LYONS, Martyn. “Os novos leitores do século XIX: mulheres, crianças, operários”, in CAVALLO, Guglielmo e CHARTIER, Roger (ed.s). História da leitura no mundo ocidental. v.2. p. 171.
[30]Cf. afirma Goulemot: “Lemos Gallimard, Éditions de Minuit, diferentemente: o que significa que a reputaçâo pública destas casas prepara uma escuta: do severo ao razoável, do sério ao enfadonho, o sentido já está dado”. Veja GOULEMOT, Jean Marie. “Da leitura como produção de sentidos”, in CHARTIER, Roger (Qrg.) Práticas da leitura. p. 113.
[31]WELLS, James W. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil. Do Rio de Janeiro aoMaranhão(1886). p. 45.
[32] Idem, ibidem, p. 63.